Matei noventa e nove

Com mãos firmes, olhos marejados,

degolei futuros como quem corta flores lindas demais para durar

Feita de carne e dilema,

visto preto desde que aprendi a decidir

Há noites em que ouço passos 

são eles: os caminhos mortos,

arrastando promessas pelas sombras

e me chamando de volta pelo nome

que eu teria se tivesse sido outra

Caso ninguém tenha lhe avisado,

Insisto: escolher é um ato terminal

 A vida não admite apelação,

nem visita íntima ao “e se”

O diabo desta vida

é que cada escolha feita

me faz cúmplice da estrada trilhada

e viúva de todas as outras

Sinto o cheiro do arrependimento

antes mesmo que ele brote em meus escombros

A nostalgia lambe meus pulsos nas madrugadas

em que sonho com os rostos que não irei conhecer

Mato futuros com a frieza de quem ama

Não de desamor,

mas de sobrevivência


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