eu moro sozinha
numa casa sem tranca
que dá pro mar
o mar é um morador antigo,
velho amigo de todas as janelas
a vizinhança é o vento
passa sempre sem pedir açúcar
aqui não tem muito barulho
só dos pássaros,
um cachorro que late pros aviões
e os coqueiros batem palmas para o vento da tarde
todo dia acordo com uma luz bonita
me atravessando o rosto
como se eu fosse tela
ou planta
ou promessa
o mar vem, às vezes, me ver
ele lambe a areia como quem pede desculpa
por ir embora depois
às vezes mergulho
fico lá
debaixo
até meu corpo esquecer que existe pulmão
não por tristeza
por vício
de silêncio
amo essa cidade
ela não me pergunta nada
não me cobra sorrisos
nem certidões
só o que sou
basta
gosto de sentar no alto da falésia
escrevo cartas para ninguém
para deixar palavras existirem fora do peito
no mercado
um moço me chama de sereia
eu rio
com a boca cheia de pitanga
tenho flores crescendo nas rachaduras da sala
um pé de manjericão que decidiu morar comigo
e um varal onde penduro lembranças
quando chove
a cidade fica com cheiro de gente boa
durmo, quando a luz tremula
apagando-se a cada poema sussurrado
a cidade também dorme
mas primeiro espera o mar voltar
