minha casa tem um quintal tão grande que dá pra se perder
principalmente depois da goiabeira
onde mora o mundo das formigas e os galhos fazem sombra com barulho de vento velho
no fim do quintal tem uma cerca de arame
que separa meu reino do dela
a vizinha do fundo
mora numa casa de madeira meio torta
com telhas cheias de musgo e janelas de vidro lilás
que refletem o céu mesmo em dia nublado
ela nunca vai à missa
nem na venda do seu Elias
minha mãe diz que ela faz velas e perfumes pra vender
mas eu sei
ela é uma bruxa
não uma daquelas más de história
ela é uma fada esquecida num livro
cheia de potes que brilham
ervas penduradas no teto
colheres torcidas como raízes
e fumaça que muda de cor
ontem era verde
e dançava no ar feito bicho com asa
às vezes, fico olhando ela sentada no meio do quintal
sem se mexer
parece que dorme acordada
com o rosto virado pro sol
absorvendo luz como se fosse comida
ela sorri pouco
mas quando sorri parece que guardou o segredo do mundo no canto da boca
eu queria morar na boca dela só pra descobrir
fico espiando escondida
atrás da amoreira
com a mão suja de terra e coração acelerado
um dia ela me chamou
nem olhou pra trás
só disse
— vem
e eu fui
com o pé descalço e o medo leve de criança
ela me deu um frasco pequeno, cheio de um líquido dourado com cheiro de chuva
e falou baixo
quase sussurrando
como quem conta um segredo pra árvore
— pra quando quiser voltar
eu perguntei
— voltar pra onde?
ela sorriu
com os olhos, não com a boca
e respondeu:
— pra sua casa no mar
depois disso
tudo ficou meio azul por dentro
e quando fecho os olhos bem forte
ouço o barulho das ondas
aqui
no quintal
