ele
segurava a alça da mochila
como quem segura uma beira
ela
procurava para onde vão as mãos quando não podem mais tocar
ficaram ali
como dois pontos finais
sem frase
o alto-falante chamou o voo três vezes
mas foi o silêncio que não partia
ela piscou uma vírgula entre o que sentia
e o que não podia pedir
ele soube a língua dos olhos dela melhor que a voz
não se beijaram
não se abraçaram
não se salvaram
meio passo
meia boca
meio mundo
ela mordeu o grito
ele fechou os olhos
prendendo um naufrágio
no impossível, forja-se um sorriso-dor
meio gesto
meio amor
a mochila vai com ele
o coração fica com ela
ou o contrário
ninguém viu
olhos presos uns nos outros como quem segura a alma para que o corpo escape menos
ninguém ouviu
duas pessoas desmoronaram
sem fazer barulho
