De quando há um silêncio em mim que ninguém decifra e você entra nele sem quebrar nada

porque o livro que você lê me morde em lugares diferentes mas nossos reflexos no espelho tomam o mesmo susto

Dos dias em que o mundo acaba

e você aparece com morangos

e aquele sorriso que diz

ainda não

porque uma vez por mês a gente vira criança

jogando jogos de tabuleiro e rindo alto

com vinho barato e olhos bêbados

de amor

De quando seu toque não quer me possuir

só me habitar um pouco

com carinho

como quem pisa descalço numa flor caída

Das vezes que você me ouve como se minha voz

fosse uma coisa santa

mesmo quando só estou falando mal do trânsito

Das vezes em que, no meio da noite

se sonho um pesadelo

você não me pergunta

só abraça

porque existe uma dança no jeito que tu

esquece a chave, tropeça no tapete,

fala com o gato

como se o gato fosse rei

e minha boca ri

e a vida não é tão pesada

porque tu tem uma tristeza que reconheço 

mas não quero consertar

só cuidar

Das vezes em que me olha e é a primeira vez

mesmo nos dias de chuva


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