nunca disse com a boca

mas você viu no jeito que eu te olhava

depois de fingir que nada demais tinha acontecido,

só para ainda passar o resto do meu dia ao seu lado,

quando era, em verdade, a constatação irreversível de sermos descaminhos

te olhei e – chorando por dentro – sorri…

“desculpa, eu te amo.”

“desculpa por amar”

ficamos bons em calar, não foi?

penduro a tua falta com cuidado no meu cabide

e seus olhos me dizem:

“eu também.”

sim, eu sabia desde o começo

não cabíamos

nem um no outro, nem no mundo

continuaremos nos encontrando nos espaços em branco,

nos mesmos livros,

nas mesmas músicas,

no mesmo banco onde a cidade parece ter milhares de anos

e onde tudo que somos insiste em existir

nossos olhares farão amor consagrando o silêncio 

“Desculpa. Eu te amo.”

“Desculpa. Eu também.”


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