Toda mulher tem uma história que começou com um “não” na boca e terminou em trauma.

Nascemos iguais: com uma boca aberta em protesto.

O primeiro som da vida é o choro; 

O primeiro verbo é o respirar, mas o primeiro gesto da existência é o berrar.

A boca, esse portal de entrada e saída: do ar, do leite, do nome. Do susto, do sopro, do chamado.

É com a boca que dizemos “fome”, “mãe”, “não”.

E é uma boca também, que nos diz para calar. Uma não, muitas. 

A sociedade é verborrágica de “boas maneiras”. 

Dita que a boca da mulher seja bonita, não barulhenta.

Querem a boca das mulheres úmida, não crítica.

Querem que ela beije, que chupe, que lamba,

mas nunca que fale alto, que diga “chega”, que reclame do gosto amargo das coisas.

É curioso como a boca da mulher é, ao mesmo tempo, cobiçada e censurada. Apontam nela a sensualidade, mas arrancam a potência.

Ela vende batons e sussurros de prazer, mas desaparece quando o assunto é poder, política ou liberdade.

Como se não fosse suficiente, reza a lenda de que mulher fala demais.

Esquecem-se de contar há quantos séculos ela foi impedida de falar qualquer coisa.

Alguém contou quantas aprenderam a morder a própria língua para não morrer?

Há que se abocanhar alguma brecha para usar a boca. Há um campo de batalha entre a prisão e a poesia, onde, vez ou outra, há uma saraivada de bocas dizendo, cantando, berrando, criando.

Há mulheres que fazem das suas bocas livros inteiros; há meninas aprendendo a mastigar coragem e cuspir medo.

Porque a boca da mulher — mesmo machucada —

ainda é lugar da linguagem do mundo.

Abre espaço com os dentes,

para que um dia todas as bocas possam simplesmente existir sem ter que pedir licença.


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