Madrugada de réveillon.
Separados por milhares de quilômetros, Carla acordou assustada, às 3h17, com o peito doendo daquele sonho, com a imagem daqueles olhos ainda piscando na sua memória.
Vinícius abriu os olhos no mesmo segundo, ainda sentindo o gosto dela na sua língua.
Ninguém contou pra ninguém.
Não naquela noite.
Mas também teve a música que tocou na rádio falando de recomeço quando ela quase apagava o número dele da agenda; o vento que passou devagar, trazendo um cheiro dela e de uma saudade que não deveria existir; o rosto dele, que ela viu na espuma do café…
Pode ser que amar de longe seja acreditar no invisível, colecionando os sinais…
Dias depois, ele teve coragem de dizer que sonhou com ela. Não mencionou o gosto. Como isso é possível? É bizarro. Ela o acharia um tarado de internet.
Carla não sabia como dizer que também sonhara, sem parecer que aproveitava a oportunidade só para flertar, mas era a verdade: os dois acordaram com o peito explodindo de vontade e medo.
Só podia ser coincidência, dessas coincidências que entre o querer e o fazer mora um abismo chamado orgulho, com o colega de quarto mais chegado, o medo, e uma cambada de tudo aquilo que a gente não diz.
Ela acabou dizendo “não pense que estou maluca ou que lhe digo isso só porque quero mostrar que temos algo além do compreensível, mas eu tive o mesmo sonho, no mesmo dia e no mesmo horário”. Vinícius disse que acreditava, mas nunca dá pra saber.
No fim, ninguém sabe se foi sinal ou só um grito de dentro que o outro ouviu e gritou junto.
Às vezes a vida parece um recado rabiscado, difícil de decifrar.
