sou ninguém
guardo dentro, um nome desatento,
que, vez por outra, estala desalento
e minhas pálpebras, tão delicadas
quebram-se
um dia, soprei baixinho quem sou
e o mundo me escapou
não devo servir em bocas
onde as palavras não cabem de jeito nenhum
a fama de ser espanta
mesmo enquanto ninguém me olha, sou
e sigo, nada sendo,
acontecendo
para o bem, sou ninguém
meu polegar dançou na estrada
pediu carona à Morte
ela parou sua carruagem
— dormia justa, em seus lençóis —
disse a ela, que eu estava atrasada
recusou-me, a Morte, o assento ao seu lado
“a imortalidade corre demais
um vivo sempre está atrasado”
queria saber quando me levaria
da presença áspera do mundo,
“mas como haveria de saber se fazes teu nome mudo?”
a humanidade não está preparada para a verdade,
por isso, cochichou-me, a fé é uma invenção brilhante
não queria a esperança, mas fico ninguém
— e arde
morre-se de tantas maneiras quantas se pode viver
morre-se, mas não escolhe-se.
