Comecei cedo a faxina 

decidida a pôr ordem em tudo:

no armário, nos papéis, nas fotografias, na poeira dos cantos,

no chão do quarto.

Uma mancha vermelha escorria do assoalho em um pulso próprio.

Fiquei do joelhos e contra-atacamos – éramos um time: eu e o balde, água e sabão. 

Esfreguei até os nós dos dedos arderem. 

O líquido pegajoso sumia, mas logo voltava – mais vivo, mais escuro. 

Substituí os jogadores. Tentamos desinfetante, vinagre, álcool de posto que usava para limpar os espelhos. 

A cada produto, um breve alívio: o horizonte de uma superfície inócua. 

Porém, bastava levantar os joelhos e o líquido retornava, insistente, zombando de mim.

Exausta, chorei sobre aquele chão. 

Minhas lágrimas mal se misturaram ao vermelho plasmático. 

A mancha não desistia. 

Meu time sucumbiu. 

Eu, ali, ajoelhada em prece há horas e a mancha cuspia de volta o que eu tentava apagar.

Deixei-a. Deitei naquele chão, quem sabe se ignorar, ela vai embora.

O vermelho, no entanto, escorreu-se rapidamente para todos os cômodos. 

A mancha estava vencendo, ela me afogaria contente, ali, sem memória de minha posição fetal. 

Um jogador que assistia do banco, me ativou uma ideia – completamente desesperada, alucinada, uma última tentativa: um acendedor de velas quebrado na minha cômoda. Convoquei novamente o álcool – definitivamente não era uma partida normal, dava pra substituir as tentativas quantas vezes eu aguentasse. 

Molhamos a cortina, os lençóis da cama, o abajur, o pufe de crochê feito pela minha bisavó… eu e meu jogador que, esgotado, pediu pra sair. 

Ah! Mas tinha ainda meia garrafa de Vodka, que não dei conta na noite passada. Substituição! Absolutamente para a sala. Taquei, também, o Gim na cozinha.

Obrigada meninos, vocês jogaram muito bem! 

A torcida na minha cabeça gritava o nome dele. Era chegada sua hora. Já estava fora da gaveta, no aquecimento, sobre a pia. Acompanhei-o até a porta, na beira do campo. Enquanto ele alongava a cabeça, orientei: “vai com tudo, artilheiro”. Risquei o fósforo.

O fogo subiu em espirais, queimando madeira, paredes, cortinas, lembranças — queimando também a esperança.

Do lado de fora, os vizinhos viam apenas uma casa em chamas. Por dentro, era o meu coração que ardia, e, infelizmente, ainda escorria em meus seios, incapaz de se limpar, condenado a sangrar para sempre. Perdi outra vez. 

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Cilene Resende

@seria.uma.sereia


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