às vezes acordo com o sabor doce das coisas

um açúcar que escorre sem vergonha pela boca

e tenho a sensação de que o mundo, enfim

se ofereceu para me carregar no colo

mas basta um giro

pequeno, quase delicado

e tudo amarga

a vida é essa mesa que roda

com seus pratos quentes e frios

oferecendo beijos e bofetadas

num mesmo movimento

como o que vem

engulo o que queima

lambo o que adoça

e finjo que sei distinguir a dádiva

do veneno

há dias que delícia

nessa língua acostumada ao sal da perda

há outros que… merda

precisa tanta oscilação?

feito um corpo familiar que abraça e sufoca

o mundo avisa que

não existe linha reta

só esse retorno constante,

essa fome que nunca sabe ao certo

o que virá depois

já girei o suficiente para entender 

que meu prato favorito

é sempre aquele

que me assusta


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