a menina era só um fiapo de gente

mas conversava com os ventos como quem aprende um idioma de trás pra frente

feito segredo que corre solto na boca dos deuses

ela dizia que Eurus vinha ao entardecer, com os bolsos cheios de folhas secas

contava histórias de terras distantes, onde o chão tremia e os barcos dormiam em sal

Zéfiro, mais gentil, chegava com cheiro de bolo quente e empurrava suas tranças no balanço da goiabeira

“me segura, seu bobo!” ela gritava rindo

e o vento respondia com uma risada que sacudia as janelas da casa de vovó

o pai não via

a mãe não ouvia

mas a avó dizia

“essa menina tem ouvido de vento, vai ser levada pras palavras um dia desses”

em noites de trovoada, a menina ficava em silêncio

porque Notus, o quente, o errante, o que vem das ruínas pedia silêncio pra chorar

e ela respeitava com as mãos no peito e os olhos na telha trincada do quarto

um dia, no meio da tarde, o vento parou

parou mesmo

como se tivesse esquecido o caminho do quintal

foi então que ela entendeu: era a vez dela de soprar

soprou pra dentro e o dentro virou um poema

ninguém viu

mas uma brisa saiu de seus pulmões

e os deuses, ah, os deuses do vento…

coçaram as barbas de nuvem e disseram:

“essa é das nossas”

então ela saiu no mundo

de saia e lápis

com um caderno de folhas que voavam antes de serem escritas

e um mistério nas costas

feito asa

Vai, que os bons ventos lhe escrevam!


2 respostas a “A menina que falava ventos”

  1. Avatar de rodrigosantosescritor

    Que texto encantando! Há magia no vento, e na infância

    Curtido por 1 pessoa

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